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Cobertura · Creator Economy

A IA colocou
todo mundo na média.

Três dias dentro do Hotmart Fire 2026, com o microfone da 98 News na mão. O evento inteiro falou de inteligência artificial — e terminou provando exatamente o contrário do que se imagina.

Passei três dias no Expominas. Dez mil pessoas de mais de trinta países, cento e quarenta palestrantes, cinco palcos, mais de cem horas de conteúdo. Um evento que, segundo o próprio CEO da Hotmart, deve movimentar entre R$ 70 e R$ 80 milhões na economia de Belo Horizonte.

A palavra mais repetida no Expominas foi "inteligência artificial". Não foi "audiência", não foi "viralizar", não foi "algoritmo". Foi IA — nos palcos, nos corredores, nas conversas de café.

E foi justamente aí que o evento se contradisse da melhor maneira possível.

O que eu ouvi de quem entende

Paulo Aguiar, que trabalha com criatividade e IA generativa, foi o mais direto de todos:

A IA, de maneira geral, é uma excelente ferramenta para te colocar na média.

E completou com a frase que eu levo pra casa: "ele não tem que ser especialista em IA. Ele tem que ser especialista em alguma coisa antes." Guarde essa ordem. Especialista em alguma coisa antes.

João Martins, que começou a Hashtag Treinamentos num quarto em Niterói para ensinar Excel aos colegas de faculdade e hoje projeta R$ 100 milhões de faturamento com mais de 200 mil alunos, disse que IA "não é moda, não é hype" — é o principal produto da empresa dele hoje. Ou seja: quem mais lucra com IA não é quem usa a ferramenta. É quem domina um assunto e ensina.

Thiago Castro é pediatra. Virou creator sem deixar de ser médico, e resumiu a lógica melhor do que qualquer manual de marketing:

A internet dá palco para o sábio, mas também dá palco para o vilão. E quando aquele profissional que é bom, que estudou, se dedicou, não se posiciona, o outro vai se posicionar.

Ele não fala de alcance. Fala de responsabilidade profissional. Capacitando 100 profissionais que atendem seis pacientes por dia, ele chega a 600 atendimentos diários que jamais caberiam na agenda dele.

Luciano Potter, 25 anos de rádio, escolheu falar de escuta num evento em que praticamente todo mundo falava de produção. "Hoje o dia continua tendo 24 horas, todo mundo pode falar e todo mundo está falando", disse. A escuta, pra ele, é "um ato de respeito e de humildade". Num festival sobre como falar mais alto, o mais experiente da sala foi lembrar que ouvir é a habilidade escassa.

A conversa que mais me marcou

Maria Helena e Tarcísio Cabral, ambos com 70 anos, criadores do projeto 60 Demais. Eles ensinam pessoas da idade deles a usar celular e a não cair em golpe. Saíram de pouco mais de dois mil seguidores, há um ano e oito meses, para 800 mil no Instagram e um milhão somando todas as plataformas. Já fizeram mais de doze turmas presenciais.

Envelhecer no sentido de ficar velho, de ficar ultrapassado tecnologicamente, é uma opção de escolha.

E a Maria Helena entregou o dado comercial sem nem perceber que estava entregando: as marcas procuram eles dizendo "a gente não está conseguindo chegar nesse público". A economia prateada movimenta mais de R$ 2 trilhões no Brasil. Existe mais de um trilhão de reais girando num público que o mercado publicitário não sabe acessar — e quem acessa é um casal de 70 anos que resolveu abrir uma câmera.

O incômodo

Agora responde rápido, sem se enganar. Você já testou o ChatGPT. Talvez tenha feito um curso. Talvez já tenha gerado uma imagem, um roteiro, um e-mail.

E o que você sabe
que a ferramenta não sabe?

Qual é o problema que você já resolveu cem vezes e que nenhum modelo de linguagem viveu? Qual é a pergunta que só quem está há vinte anos no seu setor sabe fazer? Qual é o erro caro que você cometeu e que virou critério?

Se você travou nessa parte, o problema nunca foi tecnologia. Porque a ferramenta chegou no mesmo dia para todo mundo. Seu concorrente tem o mesmo acesso que você, pelo mesmo preço, com a mesma velocidade. Se a sua única vantagem é saber usar, você não tem vantagem — você tem uma assinatura mensal.

O que isso muda para nós

Aqui na Vida de Creator a gente vem dizendo a mesma coisa há tempo, e o Fire 2026 foi a maior confirmação pública que a tese já recebeu:

  • Creator não é dancinha. Creator é a pessoa comum que influencia a partir de um conhecimento relevante para a vida do próximo. Um pediatra. Um casal de 70 anos. Um cara que ensinava Excel no quarto.
  • Quem tem 50, 60, 70 anos carrega acervo, não atraso. O mercado acabou de mostrar que tem R$ 2 trilhões esperando alguém que saiba conversar com esse público.
  • Os creators mais fortes são vozes de dentro. Gente que conhece o dia a dia da operação, que sabe vender, que sabe reverter caos. Não é a agência de fora que traduz a empresa — é a empresa que finalmente aprende a falar.

JP Resende, CEO da Hotmart, disse que acredita "muito numa combinação entre criadores de conteúdo e construtores de produtos" como a nova dupla perfeita para fundar uma startup. Eu diria que a dupla perfeita já existe dentro das empresas — só que ninguém treinou ainda o lado que sabe do produto para virar o lado que comunica.

É exatamente esse o trabalho.

A ferramenta ficou disponível para todo mundo no mesmo dia.
O repertório, não.

Léo Soltz acompanhou os três dias do Hotmart Fire 2026, no Expominas, pela Rádio 98 News. É colunista diário da emissora e criador do método Vida de Creator.

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